María Eugenia Domínguez

Chiara Albino
Universidade Federal de Santa Catarina
tarsila.chiara@gmail.com

Jainara Oliveira
Universidade Federal de Santa Catarina
gomes.jainara@gmail.com

Apresentação

Esta entrevista foi realizada em Florianópolis, Santa Catarina, em 2019. María Eugenia Domínguez, antropóloga argentina, é Professora Associada no Departamento de Antropologia e no Programa de PósGraduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Domínguez é doutora e mestre em Antropologia Social pelo PPGAS/UFSC e bacharel em Ciências Antropológicas pela Universidad de Buenos Aires (UBA). É pesquisadora do Núcleo de Estudos Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e no Caribe (MUSA/UFSC) e do INCT Brasil Plural (INCT/CNPq) e coordenadora do Curso de Graduação em Antropologia da UFSC. Em 2009, recebeu o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura da Fundação Catarinense de Cultura (FCC). Entre outras publicações, organizou, com Deise Lucy Oliveira Montardo, a coletânea “Arte e sociabilidades em perspectiva antropológica”, publicada em 2014 pela Editora da UFSC, e, com Viviane Vedana, o dossiê “Sons e Etnografias”, publicado em 2018 pela Ilha – Revista de Antropologia do PPGAS/UFSC.

Conte-nos sobre sua formação na Argentina e sobre seus primeiros interesses de pesquisa.
R:
Comecei a minha formação em Antropologia na Universidade de Buenos Aires (UBA), na Argentina. Entrei na universidade em 1993 e me formei em 2001. Era um curso longo que habilitava você para cursar diretamente o doutorado na UBA, sem necessidade de fazer mestrado. Nos anos finais da graduação eu participava de dois núcleos de pesquisa: um de estudos sobre migrações e outro de estudos de performance e patrimônio. Essas duas linhas, que marcaram a minha formação inicial em antropologia, confluíram depois nas minhas pesquisas. Na época da faculdade também comecei a praticar capoeira angola com Mestre Pedrinho de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, e dança afro e contemporânea, com Isa Soares e Valdir Silva, ambos baianos. Isto me aproximou de uma rede de artistas afro-brasileiros cujos trabalhos se tornaram objetos de reflexão na minha pesquisa de conclusão na graduação. Foi um trabalho bastante interessante porque localmente existia um imaginário sobre a brasilidade, em alguma medida, exotizante, que afetava o que esses artistas podiam ou não podiam fazer. As ideias do Tzvetzvan Todorov, que entende o exótico como um estereótipo baseado no desconhecimento e que tende a idealização do outro, me resultaram especialmente inspiradoras. Entre as e os artistas brasileiros com quem trabalhei, por sua vez, era evidente a distinção entre aqueles que trabalhavam em propostas que alimentavam um imaginário onde a brasilidade é uma, igualitária e mestiça, e outros trabalhos que traziam para o primeiro plano a questão da desigualdade racial, da negritude das suas artes e do valor da diferença.

Como se deu a escolha de fazer mestrado e doutorado aqui no Brasil? Como foi esse contato inicial? Por que você escolheu o Brasil e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)? Sabemos que na graduação você pesquisou sobre imigrantes brasileiros em Buenos Aires e a sua relação com o trabalho, arte e cultura. A escolha foi decorrente dessa pesquisa da graduação?
R:
Sim, há uma relação evidente entre essas coisas. Nessa pesquisa conheci muitos artistas brasileiros que tinham ido morar na Argentina e que tinham levado consigo, nas suas artes, saberes profundamente marcados por experiências em contextos de relações raciais que, para mim, eram desconhecidos até então. Com eles, conheci também a literatura que me remeteu ao grande universo dos estudos sobre relações raciais no Brasil e à história da luta antirracista no país. O contexto argentino era muito diferente nesses aspectos, e esse jogo de espelhos, essa possibilidade de comparação, me interessou especialmente. Na época, o Prof. Alejandro Frigerio, um dos principais estudiosos das religiões e artes afro-brasileiras na Argentina, com quem eu tinha feito alguns trabalhos, indicou o núcleo coordenado pela Profa. Ilka Boaventura Leite na UFSC. O mestrado em Antropologia na UFSC foi, sem dúvida, muito mais do que eu esperava no sentido de me permitir estudar a fundo esses temas.

Como você começou a trabalhar com questões relacionadas à música? Você mudou de tema para o doutorado, quais foram os motivos?
R:
Na verdade, poderia se dizer que, ao longo do meu percurso pela Antropologia, eu fui mudando de objetos empíricos de pesquisa para, em termos teóricos, sempre me dedicar ao mesmo tipo de questões. Sempre me interessei pela arte, ou por como, porquê, para quê, com quem e com que forças as pessoas fazem arte. Como meus trabalhos se voltam para as artes performáticas, a música e o som sempre estiveram presentes. O meu trabalho de mestrado foi um estudo sobre um movimento formado por artistas negras/os em Buenos Aires nos últimos anos do século XX. O movimento incluía a pessoas de diferentes procedências, de países da América do Sul e Central e da África. Ali o candombe afro-uruguaio, nas várias manifestações em que aparece em Buenos Aires, era um dos principais motores do movimento. Os músicos de candombe, por sua vez, faziam parte de uma rede de músicos que se dedicavam aos gêneros do Rio da Prata - candombe, murga, tango e milonga - que mais tarde eu passaria a estudar. Por isso eu não vejo esta transição como uma mudança de tema e sim como a continuidade da indagação em torno de uma mesma pergunta e de outras que dela derivam: o que é que se faz quando se faz arte?

Como você avalia a expansão dos estudos sobre música, bem como o protagonismo das mulheres pesquisadoras nesse campo?
R:
Vejo um protagonismo crescente das mulheres na vida acadêmica e artística de forma geral, e isto reflete-se também nos estudos realizados sobre música desde diferentes perspectivas disciplinares. Penso que essa expansão dos estudos sobre música se relaciona com uma abertura em relação ao que entendemos quando falamos de música, incluindo não apenas a obra em si e sim todos os saberes, práticas e performances que fazem parte do “musicar”, para usar a expressão de Christopher Small, com todos os condicionantes que os afetam e com todas as transformações que eles podem operar na vida social. Essa ampliação do objeto que os estudos sobre música atravessaram durante as últimas décadas também possibilitou a proliferação de abordagens para o seu estudo, muitas delas interdisciplinares.

Ainda falando das relações de gênero, queríamos saber se você, como mulher, teve dificuldades ao pesquisar os flauteiros? Foi difícil se inserir em campo?
R:
Na minha pesquisa no Chaco tenho me concentrado, fundamentalmente, na arte dos músicos que tocam flautas e dos artistas que fazem máscaras. Nos dois casos trata-se de homens, mas isto não tem sido necessariamente um problema. Em toda pesquisa a etnógrafa ou etnógrafo estabelece relações com as pessoas com quem trabalha. Essas relações se verão afetada por quem você é, não temos como fugir desse fato, que certamente afetará o conhecimento que será produzido a partir dessas relações. Mas pessoalmente não tenho vivido o fato de ser mulher como uma limitação nas minhas pesquisas, e sempre senti que as relações com meus interlocutores se assentavam num profundo respeito mútuo.

Qual é a principal marca do seu trabalho? Que correntes, disciplinas, autores/as e professores/as influenciaram sua formação e seus trabalhos?
R:
Por algum motivo, os deslocamentos de um lugar a outro, as migrações, sempre fizeram parte das pesquisas em que trabalhei. Mas eu diria que se há algum tema que atravessa o meu trabalho é a arte, ou as artes. Na graduação em Antropologia em Buenos Aires trabalhei com a Professora Alicia Martín, que ministrava a disciplina Folclore. Ela trabalha com artistas do carnaval e também sobre tango. Com ela e seu grupo de pesquisa me aprofundei nos principais teóricos da antropologia da performance que estavam sendo estudados nos anos de 1990, especialmente da linha de Richard Bauman e Charles Briggs. Já no Brasil me aproximei muito mais da etnomusicologia e da antropologia da arte. Nestas áreas certamente a orientação do Professor Rafael de Menezes Bastos, na UFSC, foi determinante. Aqui seria muito difícil referir a uma ou outra vertente teórica, a uma ou outra autora, ou autor, são muitos os que me inspiram. No Brasil tanto a etnomusicologia quanto a antropologia da arte recebem contribuições teóricas fundamentais de pesquisas realizadas no âmbito da etnologia indígena, e eu certamente as incorporei e dialogo com essas contribuições nas minhas pesquisas atuais. Mas durante os últimos quinze anos também tenho acompanhado o que vem sendo produzido no âmbito dos estudos sobre música popular, que é uma área marcadamente interdisciplinar. Mais recentemente tenho me interessado bastante, também, pelo que alguns chamam de antropologia sensorial ou da percepção, uma linha de trabalho também interdisciplinar onde confluem pesquisas que se interessam pelo conhecimento sensível. Para quem trabalha com arte e faz pesquisa etnográfica estas discussões podem ser bastante enriquecedoras.

No dossiê “Música e modos de subjetivação em perspectiva antropológica” contamos com o seu vídeo “Pascual Toro, flautero”. Como você avalia o uso do audiovisual nas pesquisas sobre música, dança, arte, rito e performance?
R:
O vídeo “Pascual Toro, flautero” é um trabalho audiovisual inspirado na perspectiva que o cineasta e antropólogo argentino Jorge Prelorán chamou de etnobiografia, entendendo que nesse tipo de iniciativa o conhecimento é produzido a partir da relação entre pesquisador e pesquisado. Para Prelorán, o principal valor de um filme etnobiográfico é a possibilidade de compreender a vida e a filosofia de pessoas reais, dotadas de nome, sobrenome, opiniões e problemas pessoais com os quais nos identificamos e que ao narrar as suas experiências nos permitem conhecer os seus mundos. É uma via interessante para evitar generalizações às vezes implícitas nas referências às comunidades ou sociedades. A ideia é dar destaque às formas particulares em que os sujeitos vivem as suas culturas. Além disso, o fato da etnobiografia estar assentada nos trabalhos audiovisuais, como o próprio Prelorán fazia, incide no seu potencial. Trata-se de um tipo de trabalho que busca dar conta de um desafio comum entre as que trabalhamos com arte, que é o de encontrar formas de fazer etnografia abraçando a dimensão sensorial da experiência, mas também o de comunicar de forma sensível o conhecimento antropológico. Trata-se de uma problemática que tem sido trabalhada de forma bastante interessante na antropologia visual brasileira, como também na linha que alguns chamam de etnomusicologia audiovisual. Nas minhas experiências de pesquisa o uso de meios audiovisuais tem se tornado indispensável e se revelado como um caminho potente para explorar as conexões entre arte, conhecimento e percepção sensorial.

Como você avalia o uso do audiovisual em sala de aula?
R:
Nós, professoras sabemos que, em boa medida, a eficácia das nossas aulas depende das formas em que comunicamos ou oportunizamos o conhecimento. Na docência, como na arte, forma e conteúdo são indissociáveis. Neste sentido os meios audiovisuais são chaves na hora de pensarmos estratégias para fazer com que o conhecimento produzido em sala de aula não se limite às possibilidades da linguagem verbal, seja ela oral ou escrita.

Agradecimentos

As entrevistadoras agradecem à entrevistada a autorização para publicar esta entrevista. Agradecem ainda à comissão editorial da Revista Visagem e às organizadoras do dossiê “música e modos de subjetivação em perspectiva antropológica” o aceite desta entrevista.

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